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About: Não devo dizer tudo aquilo que posso; não posso dizer tudo aquilo que devo.

«os homens são essencialmente iguais, não obstante serem iguais a certos outros homens e diferentes de todos os outros homens. Postulado paradoxal mas é a realidade»

«a cultura como generosidade do ser que se expande e comunica, do homem que se interroga e procura»

Que queres que diga,
Que estes tambores não digam já?

“Porque a realidade é um corrector automático: mal acabamos de escrever uma frase que achámos verdadeira e logo as palavras ficam sublinhadas a vermelho com tantos erros cometidos.” —Pedro Mexia

(Fonte: fuckallthecookies, via karmapolicearrestthisgirl)

Dia Mundial do Livro

Um livro nunca me salvou. Um livro nunca vestiu a capa de super-herói e me retirou de uma qualquer emboscada provocada pela minha pueril e inocente conduta. Um livro nunca apagou as chamas de um Inferno pessoal e intransmissível. Um livro nunca me ensinou os princípios e parâmetros gerais de uma teoria sentimental que me permitisse ficar longe da delinquência: arremesso emoções, expetativas e descontentamentos e corro, corro muito numa imparável fuga. Não se espera de um livro que tome estas ou quaisquer outras atitudes: espera-se de um Livro que nos sugira (nunca indique explicitamente), que nos elucide do que é verosímil, lícito, possível e nos alerte para o facto de haver no impossível alguma possibilidade.

Pelo contrário, um Livro já foi o pão para a minha boca. Um Livro já foi o subversivo microfone que emitiu fonemas-rastilho prestes a detonar. Um Livro já me enlaçou e me contornou as formas, desenhando uma ponte ténue entre espírito e corpo. Um Livro já me entregou estatísticas e projeções tranquilizantes ou, pelo contrário, reveladoras da evidente pertinência da Iminente Falência Geral do Tudo. Um Livro já foi o atlas dos meus movimentos, a fotografia a cores que precisei de revelar, as lentes de correção que precisei de colocar sobre a alma. 

Onde se lê Deus deve ler-se morte.
Onde se lê poesia deve ler-se nada.
Onde se lê literatura deve ler-se o quê?
Onde se lê eu deve ler-se morte.

Onde se lê amor deve ler-se Inês.
Onde se lê gato deve ler-se Barnabé.
Onde se lê amizade deve ler-se amizade.

Onde se lê taberna deve ler-se salvação.
Onde se lê taberna deve ler-se perdição.
Onde se lê mundo deve ler-se tirem-me daqui.

Onde se lê Manuel de Freitas deve ser
Com certeza um sítio muito triste.

Manuel de Freitas 

António Lobo Antunes & Benfica
Visão: Ainda sonha com a guerra?
Lobo Antunes: Apesar de tudo, penso que guardávamos uma parte sã que nos permitia continuar a funcionar. Os que não conseguiam são aqueles que, agora, aparecem nas consultas. Ao mesmo tempo havia coisas extraordinárias. Quando o Benfica jogava, púnhamos os altifalantes virados para a mata e, assim, não havia ataques (…)
Visão: Parava a guerra?
Lobo Antunes: Parava a guerra. Até o MPLA era do Benfica. Era uma sensação ainda mais estranha porque não faz sentido estarmos zangados com pessoas que são do mesmo clube que nós. O Benfica foi, de facto, o melhor protector da guerra. E nada disto acontecia com os jogos do Porto e do Sporting, coisa que aborrecia o capitão e alguns alferes mais bem nascidos. Eu até percebo que se dispare contra um sócio do Porto, mas agora contra um do Benfica?
Visão: Não vou pôr isso na entrevista…
Lobo Antunes: Pode pôr. Pode pôr. Faz algum sentido dar um tiro num sócio do Benfica?
joanadoscaracois:

O Pedro tem 13 anos e foi diagnosticado com Perturbação do Espectro do Autismo aos 4. Gosta de tocar piano, mas prefere estar ao ar livre, onde pode correr descalço, ainda que se recuse a tirar as meias. Quando tem as meias brancas o Pedro conversa menos, e as músicas no piano são quase sempre sóbrias, sérias e graves. Gosta de ver as meias escurecer entre um castanho leve e um verde-sujo, porque se lembra de ter pisado a terra batida e a relva alta, que a tijoleira não mancha. Hoje estávamos os dois no parque, descalços, ainda que com as meias vestidas. As do Pedro brancas prontas a escurecer, as minhas às riscas, confusas. Mostrei-lhe o dente-de-leão e soprei-o. O Pedro abriu muito os olhos e riu um riso muito alto. Gargalhadas embriagas, brincalhonas e agudas. Disse-lhe que só se podia soprar quando se queria uma coisa muito importante e que eu tinha soprado porque queria uma coisa muito importante. Quando me perguntou o quê respondi: “Quero que o Pedro esteja sempre assim bemdisposto.” Sorriu mais, voltou a correr. Quando a mãe do Pedro o veio buscar, admirou-se que ele trouxesse um dente-de-leão na mão. Perguntou-lhe o que era. O Pedro levantou a planta ao nível dos olhos e soprou com força. Voltou a rir - uma melodia feliz.

joanadoscaracois:

O Pedro tem 13 anos e foi diagnosticado com Perturbação do Espectro do Autismo aos 4. Gosta de tocar piano, mas prefere estar ao ar livre, onde pode correr descalço, ainda que se recuse a tirar as meias. Quando tem as meias brancas o Pedro conversa menos, e as músicas no piano são quase sempre sóbrias, sérias e graves. Gosta de ver as meias escurecer entre um castanho leve e um verde-sujo, porque se lembra de ter pisado a terra batida e a relva alta, que a tijoleira não mancha. Hoje estávamos os dois no parque, descalços, ainda que com as meias vestidas. As do Pedro brancas prontas a escurecer, as minhas às riscas, confusas. Mostrei-lhe o dente-de-leão e soprei-o. O Pedro abriu muito os olhos e riu um riso muito alto. Gargalhadas embriagas, brincalhonas e agudas. Disse-lhe que só se podia soprar quando se queria uma coisa muito importante e que eu tinha soprado porque queria uma coisa muito importante. Quando me perguntou o quê respondi: “Quero que o Pedro esteja sempre assim bemdisposto.” Sorriu mais, voltou a correr. Quando a mãe do Pedro o veio buscar, admirou-se que ele trouxesse um dente-de-leão na mão. Perguntou-lhe o que era. O Pedro levantou a planta ao nível dos olhos e soprou com força. Voltou a rir - uma melodia feliz.

(Fonte: drunkinloveat4am)

Ao menos tu sê ave, 
Primavera excessiva! 
Ergue-te de mim: 
Canta, delira, arde!

Eugénio de Andrade

“Serei mesmo um erro, perguntou-se, e, supondo que efetivamente o sou, que significado, que consequências para um ser humano terá saber-se errado. Correu-lhe pela espinha uma rápida sensação de medo e pensou que há coisas que é preferível deixá-las como estão e ser como são, porque caso contrário há o perigo de que os outros percebam, e, o que seria pior, que percebamos também nós pelos olhos deles, esse oculto desvio que nos torceu a todos ao nascer e que espera, mordendo as unhas de impaciência, o dia em que possa mostrar-se e anunciar-se, Aqui estou.” —José Saramago
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